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A dança e a queda

Eu havia perdido – e ainda não reencontrei – essa espécie de higiene física da escrita que toma o corpo inteiro, em sua postura, em seu caldo interior, na opacidade dos órgãos, na viscosidade do dentro; algo como, não uma disciplina, mas um exercício do corpo que se confunde com seu movimento natural, como uma função, ainda forçada demais para ser chamada vital: beber, comer, cagar, foder. Estar sentado, estar deitado, caminhar, pensar como uma excrescência do próprio corpo, e desvalorizar também a escrita. Não sobre o começo, nem a partir dele. Daí vem a necessidade de reinvestir o silêncio. Não tenho respostas, mas começo e recomeço estas palavras que não são expressão, mas como as próprias excrescências da minha pele, folículos de pele morta que caem toda vez que tomo banho, ou menos ainda do que isso, a cada instante. Daí sairá alguma coisa, ou não, ou não grande coisa, pouco importa, mas ao menos desejo que essa prática reconfigure minha máquina mental, e também, sobretudo, corporal, que ela dê um sentido ao meu corpo, que indique uma direção às raciocinações do meu cérebro, às tristezas, às palpitações, às alegrias do meu coração. E meu coração vibra cotidianamente, vibra em silêncio, ninguém o escuta, ninguém pousa a mão para sentir seus estremecimentos, ninguém cola o ouvido nele para ouvir os cantos, os gritos, os choros, os murmúrios, os silêncios, as palavras que estão aquém da palavra, aquém de toda linguagem e de toda expressão, de toda sensação. Pois para sentir já é preciso expressar, é como se a sensação, ou o sentimento, não pudesse dissociar-se da palavra que lhe dá sua matéria, que o faz ser, o faz ser palpável, lhe dá uma altura, uma textura, um timbre, uma velocidade: minha sensação agora é longa, muito longa, muito estreita e viscosa como um mar agitado, mas também lento, a tempestade é pesada, as águas turvas, mas também tranquilas, fazem remoinhos de uma lentidão, de uma lentidão, de um apesamento, como se a própria tempestade tivesse preguiça de ser devastadora, então ela avança e recua, e recua ainda mais, para mais longe, mas não mais alto; quando mergulho a mão nela, ou quando molho o dedo, nesse mar muito longo, muito pesado, muito lento, muito viscoso, retiro-o apenas úmido, mas sei que ele atravessou abismos. Poderíamos descrever com minúcia cada parcela e partícula de nossas sensações, de nossos sentimentos, de nossos desejos, puras materialidades. Mas em outro momento minha sensação já não é a mesma, como se o mar em onda pesada se vivificasse de repente, e se elevasse, se estendesse, se eterizasse, se desmaterializasse numa luz visível e palpável, ainda assim uma onda, mais tocável, mais sentível, mais experimentável. Essa onda menos densa, e ainda assim na qual posso me envolver: sinto-me chegar ao quarto da minha idade, ainda jovem, inteiramente aberto aos abismos de infinitas multiplicidades não vertiginosas; pois não é náusea o que esses abismos produzem, mas eles fazem ver como outros quadros, outras figuras a partir das cores que minhas mãos já tocaram: estou consciente, consciente da aposta e do risco, da dança e da queda.

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